Em toda empresa existe uma área administrativa que cuida de toda a burocracia. Vamos chamá-la de escritório central. Todos os problemas vão para este lugar e de lá saem com alguma solução. Da mesma forma, nosso cérebro administra as atividades do dia. Lá existe uma região chamada hipotálamo, que controla a quantidade de gordura no nosso corpo, regula a necessidade de alimento (Fome) e a vontade de se alimentar (Apetite).
Para emagrecer, precisamos enganar os mecanismos de percepção do nosso escritório central (Cérebro).
Partindo do princípio de que quem resolve fazer uma dieta está com excesso de peso, come em horários irregulares, belisca durante o dia ou exagera à noite e tem paixão por tudo o que engorda, não fica difícil imaginar o padrão de normalidade que seu cérebro adotou. Vamos supor que, além dos hábitos prejudiciais, você pese 90 quilos. Veja como o seu escritório central recebe e interpreta as mensagens que você emite:
DIETAS HIPOCALÓRICAS: As mais radicais como a da segunda-feira, a líquida, até o jejum propriamente dito. Numa situação de abundância, de repente chega a escassez! A abundância é referente a 90 quilos. Seu corpo retira energia acumulada na forma de gordura e começa a gastar para produzir energia. O escritório central, atento a tudo, percebe que algo está errado e conclui:
- Pobrezinho, está passando fome ! Dos 90 quilos, já emagreceu dois. E toma uma decisão:
- Vamos economizar energia, manter os depósitos de gordura e eliminar água e sais minerais. Nos sentimos desanimados, cansados, sem ânimo para fazer nada. De repente vem uma enorme vontade de comer até a parede. Passamos a ter como objeto de desejo alimentos que normalmente não nos chamam atenção: começamos pela cenoura, biscoito de fibra, depois cream-cracker até chegar a algo realmente de peso. Fim da dieta! O escritório central satisfeito sorri triunfante:
- Graças, conseguimos. Agora, vamos absorver tudo para recuperar os 2 quilos perdidos. Como os excessos continuam, engorda-se mais um pouquinho (lembre-se que seu peso está regulado em 90 quilos).
DIETAS COM DESEQUILÍBRIO NUTRITIVO: Dietas de um único alimento, dietas protéicas. A situação de abundância é considerada o padrão de normalidade, onde a alimentação é variada. De repente, começa a faltar algo. Como nosso corpo tem suas reservas, lança mão delas até a situação se normalizar. O escritório central percebe que alguns receptores não estão trabalhando e se preocupa com a situação:
- Vamos economizar energia. O desânimo começa juntamente com o desejo de comer alimentos proibidos. Ilusoriamente, aumentamos a quantidade do alimento permitido até aparecerem os efeitos colaterais. Quando a situação volta ao normal, o escritório central toma algumas decisões:
- Como existe uma carência nutritiva, vamos repor tudo. Para isso, absorveremos o máximo possível dos alimentos. Sentimos os quilos aumentando gradativamente. Como estamos regulados para 90 quilos, chegaremos bem próximos a eles.
- Foi difícil, mas conseguimos!
DIETAS BASEADAS EM CONTAGEM DE CALORIAS: Imagine uma pessoa que nunca teve a quantidade de calorias constante. De repente, começa a se alimentar da mesma maneira todos os dias, claro, com um cardápio de poucas calorias. Na primeira semana, começa o emagrecimento. Nas semanas seguintes o emagrecimento só decresce, apesar do mesmo esforço. O escritório central percebe que algo está errado e começa a economizar:
- Não sabemos se esta situação continuará por muito tempo. Temos uma alimentação razoável, mas não sabemos se passaremos a viver com uma quantidade fixa de calorias. O emagrecimento continua, mas cada vez mais lento e insignificante. É como desfazer uma sociedade! A estrutura ainda existe, mas os recursos se abalaram.
Já deu para perceber, que o problema não está na dieta e sim no sistema de regulação do nosso peso. Nosso cérebro tenta fazer o melhor possível. O problema é que as mudanças são muito exageradas e rápidas. Se você levar um tapa de surpresa, sua reação imediata será devolvê-lo. Ao ser exposto a uma quantidade abundante de alimento, um animal que jejuou durante um longo período de tempo tende a comer mais que o normal. Já aquele que foi forçado a comer por algumas semanas come pouco quando se permite que ele coma de acordo com a sua vontade. Nos comportamos da mesma forma. No frio comemos mais para manter nossa temperatura estável, assim como, no calor, comemos menos. A proposta em questão é que, primeiro, entendamos como as coisas funcionam. Depois, aprenderemos a regular o termostato para o peso desejado e - enganar - nosso cérebro evitando o auto-boicote.
Nadar a favor da correnteza, muitas vezes é a maneira mais fácil de chegar ao outro lado do rio.
Trecho do livro: Quem disse que comer engorda? Dra. Paula Cabral. Ed. Matrix, 4a edição.